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Patrícia Lino, n. 1990, Porto. É Licenciada em Estudos Clássicos pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes com a dissertação “E então é verdade: então a vida não passa disto. Manoel de Barros e o Círculo dos três movimentos com vista ao Homem-Árvore”. É estudante de Doutoramento no Departamento de Espanhol e Português da University of California, Santa Barbara. Participa em vários encontros científicos, iniciativas culturais e organiza eventos na mesma área.

 


PRIMEIRO DIÁLOGO INTEGRADO NO CICLO DOS AMANTES VAGAROSOS

Never again would birds' song be the same.
And to do that to birds was why she came.

ROBERT FROST

A: – Mas escuta a literatura está cheia de nós.
Quantos poemas não houve sobre isto em quantas
línguas tremendas efémeras não houve quem jurasse
ter amado tanto mais que os outros mais que todos mais
que os que viriam. Quantos houve que não dissessem
eu amo-te you care about me vem cá querida põe a tua
mão na minha come to kiss me on the lips thank you
de olhos postos num umbigo numa breguilha num lábio

Há séculos de nós nas bibliotecas
lê O'hara, Platão, Stein para saberes como termina

B: – Got it. Amo-te porém de joelhos unidos com a língua
a roçar as palavras que hei-de então dizer-te
porque nos deram palavras e não outra coisa. Repara.
É este o nosso modo de falar desde os inícios dos tempos
este modo este mesmo modo com que me ergo e afasto
os dentes e mordo o lábio enquanto me esperas com os olhos
a alargarem-se burying on mine across an expansive silence

Não te vás ainda não te vás agora que a luz se abriu
O teu nome está na minha cabeça onde começa a minha cabeça

A (máos serpenteadas furiosas abertas): – Aqui. Aqui:

B: – Would you fall in love with it? Tell me
would you forget the libraries and what all those authors
teach us? Eu amo-te you care about me vem cá querida
põe a tua mão na minha come to kiss me on the lips

Thank you dear
Thank you so much

porque o amor atropelou tudo (x36)
because love swept off our feet (idem)

A: – O acidente magnânimo que é o amor

B: – O acidente único que ele é
contido nas pálpebras
Como vou eu segurar o amor nas pálpebras

A: – Como vou eu abrir os olhos ao amor

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CALEIDOSCÓPIO

A circunferência que a urina do meu cão faz
num passeio onde não acontece mais nada
a não ser o diâmetro que a urina do meu cão faz.
A suspensão coloidal das nuvens no trânsito.
O número de habitantes de Singapura
(新加坡共和国, 5 000 000, [114.°]).
Estar de joelhos onde acabem as tuas costas.
A cor azul dos teus atacadores no tapete
da entrada. Uma péssima tradução de Aristóteles.
Andar para trás na Pan-American Highway.

Como ão há semelhanças entre um vinil dos Smiths
e um moinho de vento? São ambos processos
de fragmentação: please please please
let me get what I want

Os solavancos homéricos do autocarro no Bonfim
e os bigodes alados da motorista da SCTP.
Saber que o jazz se ouve de barriga para o ar.
O rapaz que me disse aos 6 que eu era uma varanda
ensinou-me o que era uma metáfora. A + B = C.
Expulsar o gato. Ficar a sós com Schrödinger
na caixa. “Só plantará um jardim de cabeça
para baixo aquele que não ler a Historia plantarum”.
Uma ferida é a interrupção da continuidade do tecido
corpóreo. I'm refering to Nonsense botany.
Se Sócrates sorriu para a morte de dedo em riste,
por que não haveria eu de te sorrir na fila do metro?
A primeira nódoa na camisa foi a tua boca.
A indecisão do pássaro em afogar-se no charco ou
o primeiro salto dos jogos olímpicos. Pintar um quadro
numa praia de nudistas. O movimento centrífugo
que os mamíferos desenham antes de deitar-se.
Aprender que o amor não é um rondó: ninguém quer
ouvir-nos cantar desde que Elisabeth pariu Schiller.
A tosse pneumática a 15 de novembro. As unhas raspadas.
O suicídio do hamster Tobias a 5 de janeiro. Cf. Werther.
A minha festa de aniversário em 1999. A tua saia. Tu.
O último massacre do Sudeste Asiático que era um jornal.
Ser perpendicular à porta de tua casa. A vermelha,
que rodopiava. O lavatório, o queixo. E os olhos
no espelho: girl, girl that I see,/ is there a literatest
mirror than me?

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BILHETE À MODA DE ANA C.

Entrego-te um bilhete e rezo para que 
nunca tenhas lido Ana Cristina Cesar. 
I just can't write about us making love 
and when the poem disappear we disappear too: 

"Minha filha. Não é estigmatismo. Juro. 
Não vejo o poema. Ou melhor vejo-o 
indefinido com o auxílio dos meus óculos. 

Quantos bons poemas se suicidaram 
por uma mulher? 

Enfio a carapuça. 
E canto. 

 

Se te dissesse que estou para morrer não tarda 
caso soubesse dançar como dançam os suicidas  
and believe me they dance like everybody 
se colhesse talvez as flores a pousares na minha nuca

tu me respondesses com outro bilhete. 
Mas não disse. Não dancei. Nem colhi. 

A falta tremenda do bilhete não resultou 
do roubo sonoro de Ana C. detetado por ti 
ou de um vírus no teu e-mail. Tomava chá 
quando percebi isto. O bilhete nunca chegou. 
A falta tremenda do bilhete

No tea for two. 

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JE NE SAIS PAS

Não sei
se a Teresa se a Marta
a Teresa é uma roda de samba
a Marta escreve em vidrios embaciados
hi there why you don´t give me a call? Xxx
Eu porém Patrícia não sei
comprei um lenço arrisquei-me a cruzei a porta
e faltei às duas declarando rinite alérgica
Que pena que vôce não vem etc., etc.
as melhoras, um beijo etc., etc.
Essa rinite vai a durar a vida toda etc., etc.
é melhor parar por aquí etc.,, etc.
E foi as portas da livraria que fingi
assoar-me tossir tomar de uma golada
o Rinialer e pensei: ha (+-) 2500 anos que ninguém
me ama. I don´t even know how to return a call.
Saldo €, telephobia o direito a estar calado,
qualquer coisa assim, trágica, como um peixinho
a treinar respiração dentro de agua,
por exemplo.

   

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